quinta-feira, 16 de julho de 2009

Alguém tem de morrer esta noite

Palavras são triviais, são esquecidas. Palavras são violência.
Assisto á tua dor, como quem assiste a um circo de feras e insensivelmente louva o abatimento de um coração. - Alguém tem de morrer esta noite.
Observo no teu olhar, negro de solidão, um desejo perdido de viver, um desejo quase tão escusado como as minhas tentativas de auxílio – Hoje, sou o espectador, sou a testemunha de que um dia até os Reis caiem.
Ouço o teu coração pulsar ofegante, vejo o ódio correr profundo, enquanto o teu desespero se torna apenas o fogo que faz comover a multidão.
As tuas feridas sangram nas minhas mãos, sinto-as ferver, sinto-me morrer diante deste belo espectáculo. Sinto-me congelar a cada lágrima de dor que te corre o rosto. Sinto-me inútil no meio desta bela representação do pecado.
As tuas feridas sangram nas minhas mãos, sinto-as ferver.Esta noite, sou a encarnação do demónio. Levanto-me serenamente, e num gesto fácil, limito-me, a aplaudir.

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